Poema de viagem

é contraditório
ter que experimentar
pra poder sentir
pra poder dizer
pra que alguém sinta
sem ter
que experimentar

Cada música, uma poesia musicada #6 - Ricardo Domeneck

Confiram no link abaixo a versão musical que fiz do poema Segunda-faixa 00:37 de Ricardo Domeneck, do livro A cadela sem logos.

poesiafadada.vox.com


Beijos.

Cada música, uma poesia musicada # 4 e 5

Postei aqui no poesiafadada.vox.com

Dois novos poemas musicados: Substância, de Marcelo Montenegro e Largo ma non tanto, de Marcelo Sahea.
Ficaram legais pra caralho, vá lá ouvir.

Beijo.

Cada música, uma poesia musicada # 3 - Fabrício Corsaletti

Mais uma edição da minha última cria.

Clique aqui para ouvir o Chorinho de Fabrício Corsaletti.

Cada música, uma poesia musicada # 2 - Bruna Beber

Mais uma edição da minha última cria. E, olha que legal, a Bruna Beber, que é minha amiga e vizinha, foi lá em casa e a gente gravou ela cantando. Uma coisa linda. Me emocionou.
Ouça aqui:

Poesia Fadada

Se acabou

convença a um yanomami
que o verde
que se perde terá fim
nas mãos de madeireiros

explique a um caiçara
que o peixe
que enche os barcos
um dia será pouco

tente dizer por aí
que depois
de uma chuva de verão
nossas torneiras
engasgarão mais uma última vez

conte às senhoras
nas filas das feiras
e supermercados
que as prateleiras
fingem ser o que não são

e peça à turba
que se acalme
por que as coisas
já nao valem mais nada
e o preço não vai subir

e
por fim
me diga de uma vez
que nosso amor se acabou

Poema em versão Beta, sem título

quando vejo que algo não tá certo
a ira me toma
e eu grito
eu encho o peito e solto
um grito que, se dependesse de mim,
iria até o infinito
chato
um grito chato
um berro de cabrito

mas às vezes algo não tá nada certo
e esse algo não tem mesmo jeito
a ira me toma tanto
que eu grito
eu berro
pra dentro
e choro a mágoa de ser gente
nesse caso é justo
pensar que enquanto
um homem rói o que é belo
um outro no auge do medo
apenas lambe o próprio falo

eu me sinto exausto
eu fico soldado
decapitado
na fração de segundo final
logo logo eu não existo
mas ainda dá tempo
e eu rogo
uma praga aos nossos filhos

A próxima dança

me enche de esperança
saber que existe a música
da próxima dança
me enche de paz
você tão linda na pista
balançando um penteado
que se desfaz
e te deixa melhor ainda
tanta gente na minha frente
me enche mas
me enche de orgulho
eu saber essa letra
e a gente se olhar
cantando um refrão
me enche de esperança
saber que existe a música
da próxima dança

Radiocaos


Quem não conhece o programa Radiocaos, atualmente na 91 Rock de Curitiba, deveria clicar aqui já.

Eu, confesso que não ouço rádio. Essa merda
contaminada de música ruim, propaganda e jabá.
Não tenho saco pra aquela programação em looping.
Por outro lado, se estivesse em Curitiba ouviria.

Nesse domingo, pra se ter idéia, o playlist tem desde Jupiter Apple até Velvet e Beatles (não tocando o óbvio) passando por poemas de Drummond, Tavinho Paes, etc. Tem muita coisa na lista que eu não conheço, e eu não vejo a hora.

Ah, sem esquecer que no último bloco tem dois poemas meus.

Ouçam pela internet clicando em rádio ao vivo.

Uma pausa

Não é um poema. É só pra eu me lembrar de onde estou.

Apartamento

o retrato na estante
transpira um peito dilacerado

cada instante na sala
é meu corpo no parapeito

seca na mesa de centro
a orquídea pede em vão

algo entre nós há dias
fede na geladeira

Sobre o tempo

entre o mim e o calendário

há um verbo que voa

há vários

o relógio me fita

enquanto a máquina de escrever

gasta a fita vermelha

na folha velha

e eu só quero que chegue:

a paz não sei de onde

a hora do almoço

o sono

a sagrada família num jegue

a moto e o moço da pizza

aí eu me farto

e desafio as cruzadas do jornal diário

empreendo a jihad

Contra a lacuna

na terceira linha, segunda coluna

eu torço pra que anoiteça

olho para o relógio e rogo

que venha a sexta

que o sono logo me leve

enquanto não vem a feira

enquanto não vem a segunda

a primeira semana do mês e o dinheiro

enquanto a ampulheta trapaceira

não traz o fim

que eu não canso de clamar

involuntário

Euforia

junte um bando de machos
euforia
encharque com álcool e a vontade

de sair inconseqüente na cidade quente

bombinha no rabo gato

euforia

audácia premiada e raiva contida

um cobertor na calçada, isqueiro, gasolina

euforia

eu juro que não faria

sou um menino querido por todos

minha mãe colocaria a mão no fogo por mim

a mão de um índio de preferência

me diga você

eu faria?

eu sempre me sento aqui

nesta mesma mesa

da rua amaury

hoje eu pedi

um romanne-conti

how many bucks?

não importa

só preciso fingir

que a língua está acostumada

ao francês do rótulo

e aos predicados

sensual, aveludado

de que escreveu o enólogo

me traga o vinho

e me traga logo

que eu ainda preciso

ir ao shopping iguatemy

pagar o bastante

pra não ter que escolher

how many bucks?

eu pago e me deem o melhor

eu pago e me deem a mulher

mais perfeita

mais igual

o carro da revista

pago à vista

como todo o resto

estamos juntos

eu e meus amigos

do primeiro mundo

é só pagar

how many bucks?

pra sentar

e tomar um café

na starsucks

Tialgusta

quer viajar?
vem com a tia augusta
essa tia centenária
que já foi rica, já foi puta
se regenerou e pra ser moça de novo
reconstituiu o hímem
se operou no marrocos e virou homem
largou o salto, calçou um allstar
mas ainda curte estar
com rapazes
as vezes
estar com a tia augusta é bom
ela leva a gente
pra qualquer lugar entre o céu
e o inferno
inferninho e além
a tia augusta e o capeta
não assustam niguém mais
vamos viajar coma tia augusta
pacotes econômicos
papelotes de viagem
vamos viajar que a tia gosta
de ver todo mundo junto:
putas traficantes músicos
mendigos e poetas tísicos

Carros que vão e vêm, luzes
de apartamentos

Gente que vem em vão
de outras cidades também

A gente em movimento
Vai se cruzar

talvez não
o filme que eu via
passava na janela

era a via do progresso

passando em reverso.

do lado de fora

impresso:

viação cometa

o filme que eu via

passava na janela

começava noir mas

a medida que andava

uma risca sinuosa e estreita

separava a tela

em duas metades perfeitas

uma verde, outra azul

verde e azul de verdade

o filme que eu via

aos poucos revelava

um céu repleto de estrelas

era tão bonito vê-las
que
eu cresci achando:
só um cometa para me levar
para tão perto delas.

quem é são?
quem é são levanta a mão.
o quão limpos vocês estão?
quem é são?
quem é Paulo? Quem é Severino?
que cara tem quem faz
o trabalho que é demais pra mim?
quem é são?
quem são os que não se feriram?
e os que não se machucarão?
você que é são,
já foi à periferia hoje?
ou preferiria que não?
tudo bem
todo dia aí está ela
na sua porta, impotente
(agradeça às grades)
mas saiba:
esse muro é um murro
e nem todo mundo
leva calado a vida toda
quem é são?
quem é são de verdade?
com letra maiúscula
de cidade
São Paulo
tantos lugares
tão díspares
são tantas que eu vivo aqui
mas com saudades
das bicicletas na rua
de das pipas
no céu de verão
perdida entre a velha-guarda
das putas do payssandu
quinze anos atrás,
mas me lembro como se fossem mais,
os olhos mais tristes do mundo
o batom vermelho
e o corpo dois terços nu


me assustei com a putinha
quando ela sorriu e mergulhou
nos meus olhos também tristes
só pensei em correr até o bar da esquina
e sem que ela me visse
bebê-la em um copo de tubaína
o único dinheiro que eu tinha
você não acha batuta
o largo da batata?
barracas de camelô
e prédios cheios de putas

umas velhas enxutas
acabadas meninas
se não estiver num bom dia
tome uma garrafada

fique feliz da vida e
pra tarde ser coroada
compre um sal de fruta
pra depois da buchada

você não acha batuta
o largo da batata?
barracas de...


............

eu acho, e digo mais:
vendo essa avenida que, hora acha que tem praia,
hora pensa que é a Quinta,
o Largo me parece a única coisa real

a miragem é o deserto
você sabe,
quanto mais grave
mais baixo

e um contra-baixo alto
é problema grave
pra um homem
da guitarra como eu

com o ego
e o nível de álcool
há seis semanas
no topo da Billboard

mas, pensando bem,
olha pra esse breu
e essa sauna
de alcatrão e nicotina

essa cerveja quente
e essa gente junk
que dança ao som do iggy
e faz o punk ao som do pop

toca qualquer nota
que ninguém nota