é contraditórioter que experimentar
pra poder sentir
pra poder dizer
pra que alguém sinta
sem ter
que experimentar
cotidiano, pessoas e a própria cidade

entre o mim e o calendário
há um verbo que voa
há vários
o relógio me fita
enquanto a máquina de escrever
gasta a fita vermelha
na folha velha
e eu só quero que chegue:
a paz não sei de onde
a hora do almoço
o sono
a sagrada família num jegue
a moto e o moço da pizza
aí eu me farto
e desafio as cruzadas do jornal diário
empreendo a jihad
Contra a lacuna
na terceira linha, segunda coluna
eu torço pra que anoiteça
olho para o relógio e rogo
que venha a sexta
que o sono logo me leve
enquanto não vem a feira
enquanto não vem a segunda
a primeira semana do mês e o dinheiro
enquanto a ampulheta trapaceira
não traz o fim
que eu não canso de clamar
eu sempre me sento aqui
nesta mesma mesa
da rua amaury
hoje eu pedi
um romanne-conti
how many bucks?
não importa
só preciso fingir
que a língua está acostumada
ao francês do rótulo
e aos predicados
sensual, aveludado
de que escreveu o enólogo
me traga o vinho
e me traga logo
que eu ainda preciso
ir ao shopping iguatemy
pagar o bastante
pra não ter que escolher
how many bucks?
eu pago e me deem o melhor
eu pago e me deem a mulher
mais perfeita
mais igual
o carro da revista
pago à vista
como todo o resto
estamos juntos
eu e meus amigos
do primeiro mundo
é só pagar
how many bucks?
pra sentar
e tomar um café
quer viajar?
vem com a tia augusta
essa tia centenária
que já foi rica, já foi puta
se regenerou e pra ser moça de novo
reconstituiu o hímem
se operou no marrocos e virou homem
largou o salto, calçou um allstar
mas ainda curte estar
com rapazes
as vezes
estar com a tia augusta é bom
ela leva a gente
pra qualquer lugar entre o céu
e o inferno
inferninho e além
a tia augusta e o capeta
não assustam niguém mais
vamos viajar coma tia augusta
pacotes econômicos
papelotes de viagem
vamos viajar que a tia gosta
de ver todo mundo junto:
putas traficantes músicos
mendigos e poetas tísicos